Exposição: criação d’Os Espacialistas, com palavras de Gonçalo M. Tavares

Exposição: criação d’Os Espacialistas, com palavras de Gonçalo M. Tavares

“a super-menina
espassos, letras e livros”
Criação d’Os Espacialistas, com palavras de Gonçalo M. Tavares

A menina Agustina faz 100 anos e Os Espacialistas prepararam-lhe uma festa de aniversário com letras grandes e letras pequenas, e muitas histórias para contar, uma vez, outra vez e outra. Com palavras duplas, triplas, múltiplas em sentido. Palavras que mudam de direcção e tamanho, que aumentam e diminuem à medida que as contamos, entramos nelas como em casas habitadas por imagens de espantar. Palavras que ora são crianças ora são adultas. Que se transformam em frases e contos populares enquanto caminhamos e as descobrimos nos espaços brancos onde se encontram entretecidas umas nas outras com todas a incertezas do mundo. Palavras vizinhas cheias de riscos, de boas e más in/tensões, capazes de todo o tipo de ligações próximas e distantes, das mais humanas às mais cruéis que dissecam e profanam tudo o que é humano, sagrado e quotidiano. Palavras escritas nas muralhas de mundos fechados para meninos e meninas com memórias de giz que não se assustam nem angustiam na sua pequenez e se abrem à descoberta doméstica de toda a espécie de relações humanas e animais, que sonham, contam, somam, subtraem, multiplicam e dividem em jogos de imagens e poder, doces e perversos à vez, em constante conflito familiar. 

Nesta exposição dedicada à Super-Menina que foi a Agustina Bessa-Luis, Os Espacialistas transformam o deambulatório aéreo do claustro do Convento de São Gonçalo, no corpo de uma criança e no seu espaço de recreio. Criam uma caderneta de significados de paredes, tecto e chão, cheia de imagens, de jogos e apontamentos objectuais de origem anatómica, reflexo da maior parte das actividades humanas, presentes nos textos de Agustina, através da forma como “esquiça” as relações humanas das suas personagens, espelhos do seu contexto familiar e social. 

Cada uma das alas do claustro é uma página de caderneta escrita por uma narrativa fotográfica espacialista e um conjunto de 100 palavras espacializadas de Gonçalo M. Tavares. Um espaço superpovoado de imagens e objectos à semelhança dos manuscritos da escritora. Um espaço onde se pode jogar à laranjinha e sonhar com o Vale Abraão.

Aqui brincar é consciencializar o futuro do corpo de cada um de nós através de jogos de letras e palavras antigas, jogos de escalas e de objogos tradicionais, ainda presentes na memória de alguns de nós, transformados em jogos poéticos de corpo, espaço e linguagem, onde se revela a natureza anatómica da maior parte dos es/passos, dos gestos e dos objectos do nosso quotidiano (artístico) onde o corpo, o porco e o copro se encontram em permanente jogo visceral por causa do grande nó nas tripas que nos une a todos.

Podemos vê-lo no diálogo de escalas criado entre as grandes letras prateadas de festa de aniversário instaladas junto ao tecto, a formar nomes de livros de Agustina Bessa-Luis, e os milhares de caracteres na forma de sopa letras espalhadas junto ao chão em tom de notas de rodapé, humanas e animais para meninos grão-de-milho, com dentes de rato. Um caderno em potência à espera de ser escrito por quem o habitar, repleto de memórias e imagens de recreio infantil póstumo, de alguém que nos escreve a todos para a frente.

As montagens artísticas de paredes, tecto e chão de natureza objectual, as imagens Espacialistas produzidas a partir de Es/passos, letras de diferentes tamanhos, tipos e materiais, livros e muitos outros objectos provenientes do kit Espacialista e de práticas agrícolas tradicionais são reverberações memoriais e imaginárias de Agustina. 

Todas as instalações são diálogos entre os jogos tradicionais infantis, os conflitos sociais e familiares e as actividades humanas agrícolas e animais (perversas) presentes nos livros e nas memórias de Agustina Bessa-Luis.

As casas, a família, as terras, os animais, as práticas animais e agrícolas, os alimentos, as actividades domésticas, os objectos de dentro e de fora, as paisagens, os gestos, os costumes, as brincadeiras de criança, os jogos (humanos), o fogo, a religião, o vinho, as vísceras, os moinhos de água e o cinema estão presentes.

DE 15 OUTUBRO 2022

A 12 FEVEREIRO 2023

MUSEU AMADEO DE
SOUZA-CARDOSO, AMARANTE

CUSTO: ENTRADA MUSEU