Agustina Bessa-Luís (1922-2019)

Ligada por vínculos biográficos, familiares, afetivos e literários a vários concelhos da Região Norte, é autora de uma obra de valor ímpar na Língua e Cultura portuguesas. A matriarca das escritoras nortenhas foi uma força prodigiosa que se afirmou no panorama cultural português e além-fronteiras e desbravou novos territórios literários. O público, mesmo o que não a lê, é-lhe, ainda nos nossos dias, reconhecido e tem-lhe admiração: “Eu hoje sou profundamente aceite na sociedade portuguesa na medida em que sou profundamente cúmplice dela”, disse. Em 1953, o romance A Sibila (1954) faz de Agustina uma das principais escritoras na ficção portuguesa, o que lhe vale o epíteto de segundo milagre literário do séc. XX português. Títulos como Vale Abraão (1991) e As Terras do Risco (1994) foram adaptados ao grande ecrã pela mão de Manoel de Oliveira e de João Botelho. Colaborou em várias publicações periódicas e foi diretora do diário O Primeiro de Janeiro, no Porto, e do Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa.

Colocando, muitas vezes, a mulher no centro da teia dramática, ocupou-se do retrato da sociedade portuguesa no Norte em especial, dos equívocos das relações humanas e das relações de poder. Essencialmente, daquilo que nela é fruto do contexto próprio e intemporal. Traçar um roteiro literário de Agustina é tanto percorrer o seu mapa geográfico da biografia e afetos, como os territórios aos quais dedicou a sua escrita e o seu interesse — Porto e o Douro, Esposende, Póvoa de Varzim, Vila do Conde, Amarante, Baião, Peso da Régua, entre outros. “A minha obra é portuguesa, constituída por sentimento e gente portugueses até à medula”, lemos.

Trabalhou a transformação da própria matriz da literatura portuguesa, na senda dos grandes autores europeus, em particular a tradição russa, e também a temática feminista, ainda que se tenha recusado sempre a assentir a essa rotulagem. A sua obra é permeada de uma infindável indagação, partilhada com os leitores ao longo de uma extensa carreira literária que não terá tido sempre o reconhecimento merecido. “(…) trinta anos de vida literária são um só dia. E um dia de trabalho é igual à eternidade das nossas tentativas (…)”, escreveu. Diz Agustina: “Eu tenho só uma vocação, que é escrever. Usar a palavra, dar-lhe vida, confiar nela para que nela vejam verdades poderosas, como a de sermos destinados a coisas maravilhosas.” 

Se é verdade, como sumarizou a própria escritora, que “A sensibilidade extrema vai muitas vezes a par com a crueldade mais refinada”, aludindo a uma característica crítica com que os leitores de Agustina sempre a definiram, também é verdade que o seu olhar analítico nos concedeu uma leitura da sociedade portuguesa de lucidez inigualável: “Francamente — porque pensam que eu escrevo? Para incomodar o maior número possível de pessoas, com o máximo de inteligência.” 

Ora, este tópico é particularmente importante no sentido em que estas Comemorações pretendem proporcionar o reencontro de Agustina com os seus leitores fiéis mas também a descoberta da obra da escritora maior da língua portuguesa junto de um novo público, o que implica ultrapassar uma certa conceção de conservadorismo a que a imagem da escritora é votada. Regressamos, portanto, a Agustina, quando nos diz: “Em certo aspecto, sou o que se chama ‘conservadora’. No que se refere a um enraizamento que constitui o melhor da minha cultura. Não me fixo a costumes nem a lugares; sintetizo certa função da esperança de vida nessa inabalável aliança com a terra e as coisas.” Não haverá, no período da literatura portuguesa de que nos ocupamos, autora cujo pensamento, estilo e temáticas se comparem na ousadia, no humor, na genialidade e na pertinência.